O Que São Terapias Celular e Gênica?

As terapias celular e gênica representam a fronteira mais avançada da medicina moderna, prometendo tratamentos curativos para doenças até então incuráveis. Diferente dos medicamentos tradicionais que tratam sintomas, essas abordagens atuam na causa raiz — modificando genes defeituosos ou substituindo células danificadas.

A terapia gênica consiste na introdução, alteração ou substituição de material genético nas células do paciente para corrigir defeitos que causam doenças. Já a terapia celular envolve o uso de células — frequentemente modificadas geneticamente — para restaurar funções ou combater doenças.

O biomédico tem papel central nesse campo, atuando em pesquisa, desenvolvimento, produção e controle de qualidade de produtos de terapia avançada. Segundo a Anvisa, o Brasil registrou mais de 200 protocolos de pesquisa clínica em terapia celular e gênica entre 2020 e 2025.

Terapia Gênica: Principais Abordagens

Terapia Gênica In Vivo

O vetor (geralmente um vírus modificado) é administrado diretamente no paciente, entregando o gene terapêutico às células-alvo:

  • Vetores virais: Adenovírus, vírus adeno-associado (AAV), lentivírus — cada um com vantagens específicas
  • Administração: Intravenosa, intratecal, intraocular, intramuscular
  • Exemplos: Zolgensma (AME), Luxturna (cegueira hereditária), Hemgenix (hemofilia B)

Terapia Gênica Ex Vivo

Células do paciente são coletadas, modificadas geneticamente em laboratório e reinfundidas:

  • Células-tronco hematopoéticas: Modificadas para tratar hemoglobinopatias (anemia falciforme, beta-talassemia)
  • Células CAR-T: Linfócitos T geneticamente modificados para combater câncer
  • Vantagem: Maior controle sobre a modificação genética
  • Exemplo: Casgevy (CRISPR para anemia falciforme — primeiro tratamento aprovado baseado em CRISPR)

CRISPR-Cas9: A Revolução da Edição Gênica

A tecnologia CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) é o sistema de edição gênica mais versátil e acessível já desenvolvido:

  • Funcionamento: A proteína Cas9, guiada por um RNA, corta o DNA em local específico, permitindo correção, deleção ou inserção de sequências
  • Precisão: Edição em ponto específico do genoma (~20 bases)
  • Custo: Significativamente mais barato que técnicas anteriores (ZFNs, TALENs)
  • Prêmio Nobel: Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier receberam o Nobel de Química em 2020

Para entender as bases moleculares dessas técnicas, confira biologia molecular e PCR: como funciona.

Terapia Celular: Principais Modalidades

Células CAR-T

A terapia CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) é uma das maiores revoluções da oncologia:

  1. Coleta de linfócitos T do paciente por aférese
  2. Modificação genética em laboratório — inserção do receptor CAR
  3. Expansão celular (multiplicação em biorreatores)
  4. Reinfusão no paciente após quimioterapia de linfodepleção

Resultados impressionantes em cânceres hematológicos:

Produto CAR-TIndicaçãoTaxa de RespostaAprovação Anvisa
Kymriah (tisagenlecleucel)LLA, LDGCB52-83%Sim (2022)
Yescarta (axicabtagene ciloleucel)LDGCB72-83%Sim (2023)
Tecartus (brexucabtagene autoleucel)LCM87%Sim (2024)
Breyanzi (lisocabtagene maraleucel)LDGCB73%Sim (2024)

O custo ainda é proibitivo — entre R$ 1,5 milhão e R$ 2,5 milhões por tratamento no Brasil. O SUS incorporou o Kymriah em 2024 para leucemia linfoblástica aguda refratária em pacientes pediátricos.

Células-Tronco

As células-tronco têm capacidade de autorrenovação e diferenciação em diversos tipos celulares:

  • Células-tronco hematopoéticas (CTH): Transplante de medula óssea para leucemias, linfomas, mieloma
  • Células-tronco mesenquimais (CTM): Em pesquisa para lesões articulares, doenças autoimunes, cicatrização
  • iPSCs (células-tronco pluripotentes induzidas): Células adultas reprogramadas — potencial ilimitado

O Brasil tem centros de referência em transplante de medula óssea como o Hospital de Clínicas de Curitiba (UFPR), Hospital Israelita Albert Einstein e InCor/FMUSP.

Terapia com Células NK

As células Natural Killer (NK) são uma alternativa promissora às CAR-T:

  • Vantagem: Podem ser usadas de forma alogênica (de doadores), sem necessidade de coleta do próprio paciente
  • Menor risco: Menos síndrome de liberação de citocinas (CRS) que CAR-T
  • Produção escalável: Podem ser produzidas a partir de cordão umbilical ou linhagens celulares

O Papel do Biomédico nas Terapias Avançadas

O biomédico é essencial em múltiplas etapas:

Pesquisa e Desenvolvimento

  • Desenvolvimento de vetores virais e sistemas de edição gênica
  • Estudos pré-clínicos in vitro e in vivo
  • Publicação de artigos científicos e pedidos de patentes

Produção (BPF/GMP)

  • Manufatura de produtos celulares em salas limpas (classe A/B)
  • Expansão celular em biorreatores
  • Transducing (modificação genética) de células
  • Criopreservação e logística da cadeia de frio

Controle de Qualidade

  • Testes de esterilidade, endotoxina, micoplasma
  • Citometria de fluxo para caracterização celular
  • Viabilidade e contagem celular
  • Testes de potência e identidade

Regulatório

  • Preparação de dossiês para a Anvisa
  • Monitoramento de eventos adversos
  • Farmacovigilância pós-comercialização

Panorama no Brasil

O Brasil tem avançado nas terapias avançadas, mas ainda enfrenta desafios:

Marcos positivos:

  • Aprovação de 4 produtos CAR-T pela Anvisa
  • Incorporação de Kymriah ao SUS (2024)
  • Mais de 50 centros de transplante de medula credenciados
  • Resolução RDC nº 508/2021 da Anvisa — marco regulatório para terapias avançadas

Desafios:

  • Custo elevado dos tratamentos
  • Poucos centros habilitados para CAR-T (apenas 6 no país)
  • Dependência de importação de vetores virais
  • Formação especializada limitada para biomédicos

A Fiocruz, o Butantan e universidades como USP, Unicamp e UFRGS lideram pesquisas na área, com projetos para desenvolver CAR-T nacional a custo acessível.

Para detalhes sobre como se especializar, confira pós-graduação em biomedicina: melhores áreas e biomedicina: áreas de atuação.

Perguntas Frequentes

Terapia gênica cura ou apenas trata?

Depende da abordagem e da doença. Algumas terapias gênicas oferecem potencial de cura — como o Zolgensma para atrofia muscular espinhal tipo 1, que fornece uma cópia funcional do gene SMN1 com efeito duradouro. Outras, como a CAR-T para linfoma, podem alcançar remissão completa duradoura em uma parcela significativa dos pacientes. Porém, nem toda terapia gênica é curativa — algumas exigem reaplicação ou complementação com outros tratamentos.

Quanto custa um tratamento com CAR-T no Brasil?

O custo de uma terapia CAR-T no Brasil varia de R$ 1,5 milhão a R$ 2,5 milhões por paciente na rede privada. Pelo SUS, o Kymriah está disponível desde 2024 para leucemia linfoblástica aguda refratária em crianças e jovens adultos, sem custo para o paciente. Projetos brasileiros de CAR-T nacional (Fiocruz, USP) prometem reduzir significativamente esse custo nos próximos anos.

CRISPR já é usado em pacientes humanos?

Sim. O primeiro tratamento baseado em CRISPR aprovado pela FDA e pela Anvisa é o Casgevy (exagamglogene autotemcel), para anemia falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão. Células-tronco hematopoéticas do paciente são editadas com CRISPR para reativar a produção de hemoglobina fetal, substituindo a hemoglobina defeituosa. Dezenas de outros ensaios clínicos com CRISPR estão em andamento para câncer, doenças genéticas e infecciosas.

Biomédico pode atuar com terapia celular e gênica?

Sim. O biomédico pode atuar em pesquisa, produção (manufatura celular em salas limpas), controle de qualidade, assuntos regulatórios e desenvolvimento clínico. As habilitações mais relevantes são biologia molecular, genética e reprodução humana (para células-tronco). A formação ideal inclui mestrado ou doutorado em áreas correlatas e experiência em cultura celular e biologia molecular.